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Afinal: é ÔMEGA-3 ou óleo de peixe?

Por Dra. Maria Inês Harris (Convidado) | Química

É curioso que, mesmo em uma época em que supostamente há uma rígida regulamentação sobre a rotulagem de alimentos e suplementos, ainda se veja tantos consumidores ludibriados com rotulagens e propagandas enganosas.

Os mais nítidos exemplos dessa situação são os supostos produtos denominados ômega-3, que na verdade são óleos de peixe. Alguns deles até enriquecidos mas que, pelo alto teor de lipídeos saturados ou ômegas de cadeia curta, não oferecem os benefícios reais observados nos estudos com ômega-3 de cadeia longa.

Explico: 

No metabolismo dos ômegas temos o ácido linoleico (ômega 6) que dá origem após seu processamento ao ácido araquidônico e, consequentemente, a compostos da cadeia inflamatória, as prostaglandinas, os leucotrienos e as tromboxanas.  O ácido alfa-linolênico (ômega 3 de cadeia curta), por sua vez, pode ou ser convertido a gama-linolênico, e passar também a gerar compostos pró-inflamatórios, ou pode gerar o ácido eicosapentaenóico (EPA), que é convertido por sua vez em ácido docosahexaenóico (DHA), esses últimos também conhecidos como ômega-3 de cadeia longa. Ambos não sofrem conversão à série pró-inflamatória e, pelo contrário, compõem a serie anti-inflamatória gerando resolvinas e protectinas, substâncias essenciais para o reequilíbrio da homeostase orgânica no reparo de processos inflamatórios.

Deve-se consumir lipídeos das duas séries, porém devido à dieta desbalanceada há um grande excesso de lipídeos da série ômega-6, de forma que a suplementação eficaz deve ser realizada apenas com os componentes da série ômega 3 que não podem ser internamente convertidos em ômega-6, ou seja: deve-se realizar a suplementação com EPA e DHA.

Há diversos estudos na literatura científica mundial comprovando os benefícios da suplementação com EPA e/ou DHA na prevenção de quadros inflamatórios crônicos, na redução de dermatite atópica, na melhora do desenvolvimento do SNC durante a infância, na redução de recidivas em quadros de infarto especialmente quando associados à aspirina, e tantos outros benefícios. 

O que encontramos no mercado, porém?

Produtos rotulados como “ômega-3” ou então “ricos em EPA e DHA” e, quando se observa a rotulagem, vê-se que esses componentes compreendem 30% ou, no máximo (em poucos produtos) a 66% da fórmula. Ou seja: o consumidor acredita que está restabelecendo o balanço consumindo ômega-3, quando na verdade ele pode estar piorando a ingestão de componentes da série ômega-9.

Considero que o médico seja um dos principais promotores da educação do consumidor para o consumo adequado de suplementos e, nesse caso, deveriam orientar os clientes a procurarem nas farmácias produtos contendo no mínimo 90% de EPA e/ou DHA, pois não é somente a dose de EPA ou DHA que importa, e sim o quanto de ômegas-6 se ingere simultaneamente (que deve ser o menor possível).

Para saber mais:

de Lorgeril and Salen.  Helping women to good health: breast cancer, omega-3/omega-6 lipids, and related lifestyle factors. MC Medicine  12:54, 2014. Disponível em: http://www.biomedcentral.com/1741-7015/12/54

Spite M., Serhan, C.N. Novel Lipid Mediators Promote Resolution of Acute Inflammation: Impact of Aspirin and Statins. Circulation Research 107(10):1170-1184, 2010. 

Harris, W.S. The omega-3 index as a risk factor for coronary heart disease. Am J Clin Nutr 87(suppl):1997S–2002S, 2008.

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