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Asas de frango fake, Steve Jobs e a proteção dos animais

Por Dra. Fernanda Bayeux | Advogada

Em dezembro de 1931, Winston Churchill, ao fazer algumas previsões de como seria o mundo em cinquenta anos, disse uma frase que se tornou célebre: "espero que um dia possamos escapar do absurdo de criar um frango inteiro para comermos apenas seu peito ou sua asa, através de meios que nos permitam produzir tais itens separadamente". Mais de cinquenta anos se passaram e, de fato, o ser humano já domina os saberes necessários para produzir asas e peitos de frango, talvez não deliciosos, mas sim comestíveis, sem que uma só gota de sangue aviária seja derramada no intento.

De fato, o mundo post-Churchill assistiu façanhas incríveis, como chegar até a Lua, e em breve, até Marte. E parece que, quanto maiores os avanços tecnológicos, mais eficazes nos tornamos em prejudicar todas as formas de vida existentes na Terra. Atendo-nos apenas à causa animal, o emprego de animais na indústria alimentícia, sua criação extensiva em cativeiros, a destruição do meio-ambiente e dos habitats de espécies selvagens, o emprego de diversas espécies senscientes em testes absurdos de laboratório, tudo isso pôde ser feito em escalas muito maiores e muito mais cruéis com o advento de novas tecnologias e seu impacto nas práticas industriais e científicas. Estamos vivendo justamente o absurdo mencionado por Churchill, em escalas que ele jamais imaginaria em suas previsões.

Diante desse cenário de calamidade existe, ainda, espaço para otimismo? Eu acredito que sim. Se por um lado as tecnologias têm sido usadas a serviço da crueldade e da destruição, por outro, quando bem empregadas, podem ajudar a humanidade a encontrar o caminho para um desenvolvimento ético e sustentável.

Um bom exemplo de novas tecnologias a serviço dos animais está sendo "cozinhado" no Vale do Silício. Quando pensamos nesse local, logo nos vem à mente Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg (só homens, precisamos mudar isso também....) e tantos outros que, ao propor soluções inovadoras para necessidades que nem existiam ainda, mudaram por completo a forma como a humanidade vive, consome e se comunica. E nesse mesmo local, nos últimos dez anos, diversas start-ups estão tentando revolucionar a indústria da alimentação e tentando oferecer uma solução sustentável à questão da escassez de recursos e alimentos no mundo. Algumas delas desenvolveram, inclusive, versões sustentáveis de carnes, laticínios e até "ovos", produzidos através de plantas ou células isoladas de animais, empregando técnicas avançadíssimas de bioengenharia .

Se essa tecnologia puder ser replicada em massa, a baixos custos e com um rastro de carbono razoavelmente baixo, essa será uma das maiores revoluções da humanidade até hoje, comparada mesmo à Revolução Agrícola Inglesa do Sec. XVIII. E para entender o tamanho da revolução, basta olharmos para os números atuais que envolvem o consumo de carne animal.  De acordo com a ONU, a criação extensiva de rebanhos utiliza em torno de 30% da terra (livre de gelo) disponíveis e produz cerca de 15% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Nos Estados Unidos, segundo a The Economist, produzir 1kg de animal vivo requer 10kg de alimento para bovinos, 5 kg para suínos e 2.5 kg para aves, sem citar os recursos hídricos utilizados na criação extensiva desses animais. Levando em consideração que entre agora e 2050, a população pode aumentar para 9 bilhões de seres humanos, podemos esperar que a demanda por carne, e seu impacto nefasto no meio-ambiente, cresça na mesma proporção. Sempre que repasso essas estáticas tenho mais certeza de que apenas uma verdadeira revolução tecnológica poderia nos salvar desse futuro desastroso.  

Porém, enquanto asas de frango não dão em árvore, nosso papel é lutar por políticas públicas e legislações que garantam que o meio ambiente e a proteção animal sejam obrigações dos governos e das empresas, e não apenas uma questão de auto-regulamentação da indústria (vide recente operação Carne Fraca da polícia federal) ou do consumismo responsável por parte dos cidadãos. Com novas exigências legislativas e sociais, as empresas têm um incentivo ainda maior para inovar. Essa conscientização e trabalho junto aos agentes políticos é também um dos tantos compromissos da Cosm-éticos!

Este artigo não representa as opiniões ou posicionamento do Trench Rossi Watanabe, mas tão somente os da sua autora. 


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