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Brasil por uma Ciência Ética e Moderna – A emergência por uma nova visão de realidade.

Por Adriana Khouri | Química

“É essencial que se vá além dos meros ataques a determinados grupos ou instituições sociais, mostrando que suas atitudes e comportamentos refletem um sistema de valores que sustenta toda a nossa cultura, mas está ficando agora obsoleto. Será necessário reconhecer e comunicar amplamente o fato de que nossas mudanças sociais correntes são manifestações de uma transformação cultural mais ampla e inevitável. Somente então estaremos aptos a abordar a espécie de transição cultural harmoniosa e pacífica descrita num dos mais antigos livros de sabedoria da humanidade, o I Ching chinês, O Livro das Mutações: “O Movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil, o antigo é descartado, e o novo é introduzido”.

“A terceira transição também está relacionada com valores culturais, envolve o que hoje é frequentemente chamado de mudança de paradigma – uma mudança profunda no pensamento, percepção e valores que formam uma determinada visão de realidade. O paradigma ora em transformação dominou nossa cultura durante muitas centenas de anos, ao longo dos quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o resto do mundo (...). Nas décadas mais recentes, concluiu-se que todas essas ideias e esses valores estão seriamente limitados e necessitam de uma revisão radical”. 

“A criatividade da sociedade – sua capacidade de respostas a desafios – não se acha completamente perdida. Embora a corrente cultural principal se tenha petrificado após insistir em ideias fixas e padrões rígidos de comportamento, minorias criativas aparecerão em cena e darão prosseguimento ao processo de desafio e resposta. As instituições sociais dominantes recusar-se-ão a entregar seus papéis de protagonistas a essas novas forças culturais, mas continuarão inevitavelmente a declinar e a desintegrar-se, e as minorias criativas poderão estar aptas a transformar alguns dos antigos elementos, dando-lhes uma nova configuração. O processo de evolução cultural continuará então, mas em novas circunstâncias e com novos protagonistas”. 

Qual a sua noção de Ciência e de Sociedade? Tudo que você aprendeu na escola ou na Universidade continua válido? Você aceita ou questiona? E por que questionar se, afinal de contas, a ciência e seus operadores mais dedicados nos deram a conquista do progresso pela evolução tecnológica? Bem, são exatamente estas as perguntas que se fez um grande cientista até chegar às conclusões acima. Aliás, as três passagens anteriores são argumentos muito bem fundamentados por Fritjof Capra, físico e teórico de sistemas austríaco, professor do Centro de Ecoalfabetização de Berkeley, na Califórnia, em seu livro O Ponto de Mutação – A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente.Segundo Capra, numa aguda crítica ao pensamento cartesiano, nossa abordagem, limitada aos problemas orgânicos, nos levou ao impasse perigoso que ora nos ameaça. Contudo, como se pôde perceber, ele antevê boas perspectivas para o futuro, com uma nova visão de realidade, que envolve mudanças radicais em nossos pensamentos, percepções e valores. Uma nova estrutura conceitual para todos os ramos da Ciência, para a Economia e a Tecnologia, e uma perspectiva ecológica e feminista. Falemos, então, do amanhã.   

Um novo movimento pela abolição dos testes em animais e um novo paradigma para a ciência está, ainda timidamente, em curso no Brasil, gestada por cientistas antivivisseccionistas, bioeticistas, juristas, ativistas, artistas, estudantes e muita gente que acredita em transformação, mudança, e trabalha por esta outra visão de realidade. Intitulado Brasil por uma Ciência Ética e Moderna, o movimento representa o pensamento e a crença nesses novos valores que Fritjof Capra expõe brilhantemente neste e em outros livros seus. Como disse Capra, “as minorias criativas poderão estar aptas a transformar alguns dos antigos elementos, dando-lhes uma nova configuração”, representando a capacidade da sociedade em dar respostas diante de nossos impasses. Aqui, no caso, impasses eminentemente éticos a afetar a demanda social envolvida nos campos econômico e tecnológico, no sentido de trazer novos modelos para a construção de uma ciência sem exploração e sofrimento de seres vivos. Tendo como embasamento principal a ética, a não-violência, a empatia, a diversidade, o processo colaborativo, a visão sistêmica da vida e a consciência ecológica e sustentável, o movimento busca alertar, rever e construir consenso, oferecendo soluções em relação ao uso do nosso sistema ultrapassado de valores no que se refere à produção científica praticada à custa de animais nas universidades brasileiras. Hoje, uma ciência assentada na produção massiva, quantitativa, repetitiva e pouco relevante do ponto de vista criativo e inovador, realizada através da experimentação animal frenética que banaliza a vida, na frieza insensível dos laboratórios universitários. Em centenas de protocolos de testes mal se percebe a diferença, representando mais um modo de operar acadêmico com o objetivo de publicação do trabalho do que um real questionamento técnico sobre o assunto.

O movimento Brasil por uma Ciência Ética e Moderna luta pela implementação cada vez maior dos métodos alternativos já existentes e disponíveis em substituição ao uso de animais. Luta pela continuidade das pesquisas em novos métodos, pela conscientização e assimilação de um novo sistema de valores a permear nosso pensamento científico e acadêmico. Vem para somar forças nos diferentes segmentos da sociedade e juntar-se a países do mundo inteiro que estão retirando os biotérios das universidades, atualizando suas leis e revendo seus posicionamentos não só quanto ao uso de animais na ciência, mas também quanto ao próprio status jurídico dos animais e da natureza em suas legislações. É isto que propomos no Brasil. Evolução social e científica que associe tecnologia e ética. Levaremos para os campi das universidades panfletos, banners e outras formas de publicidade. Convidaremos os especialistas, organizaremos audiências e palestras. Queremos envolver as escolas, as instituições, organizações, os coletivos, a comunidade, neste grande objetivo que busca, em sua essência, um despertar da nossa indiferença e equivocada concepção de vida, baseada numa abordagem agressiva, exploradora, autoafirmativa e competitiva – tendências que enfatizamos em excesso, e atualmente constituem a nossa ameaça – para uma visão integrativa, cooperativa, qualitativa e de preservação, até hoje negligenciada. É preciso que se diga que um movimento por uma ciência ética e moderna não a diminui nem a limita. Muito pelo contrário. Valores que eram separados dos fatos científicos reintegram-se, inerentes que são à toda natureza viva, reelaborando e beneficiando a ciência em seus aspectos intelectuais e morais, privilegiando a sensibilidade e o respeito entre humanos e animais. E por fim, revitalizando a noção de que a natureza e o eu são um só, a desejar e merecer o privilégio de viver.  

Usar e explorar animais em testes é desnecessário, desumano e atrasa a ciência. Junte-se a nós e colabore por um mundo melhor para os humanos e para os animais.

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