Artigos

Mitos sobre natural versus sintético na perfumaria

Por Daniel Barros (Convidado) | Perfumista

A perfumaria é complexa – justamente aí é que reside seu charme. Dentre tantos desentendimentos, está o do natural versus sintético. A maior parte das pessoas usa a analogia da nutrição: quanto mais natural, menos danoso à sua saúde e melhor o aroma (imagine um simples suco de laranja espremido na hora e outro de caixinha). Na perfumaria é o contrário. Os ingredientes utilizados contêm, in natura, alérgenos que podem causar dermatites ou até mesmo câncer. Pensando nisso (e também na economia de dinheiro, tempo e energia na extração) e incentivados pelos ativistas ambientais, cientistas passaram a sintetizar as matérias-primas, começando pela cumarina (amêndoas, 1868), heliotropina (cereja, 1869), vanilina (baunilha, 1877) e isobutilquinoleína (couro, 1880). Nascia aí a perfumaria moderna, dando um salto quântico em direção a um universo virtualmente infinito de possibilidades. Na virada do século, odores de flores como violeta, íris, jasmim, gerânio, rosa, cravo e lírio também foram sintetizados, enquanto moléculas de textura e fixação (base do perfume) como musgo de carvalho, âmbar gris, madeiras nobres e almíscares surgiram na segunda metade do século XX. Hoje a tecnologia permite a identificação da estrutura de praticamente qualquer aroma através do método de headspace. Se você quiser engarrafar o cheiro do seu animal de estimação e borrifá-lo durante o dia, isso é possível, embora com custo proibitivo.

O movimento hippie / new age iniciado nos Estados Unidos (especialmente Califórnia) nos anos 60 e firmado nos anos 70 trouxe à tona diversos temas importantes, entre eles os direitos dos animais e a preocupação com o meio ambiente. As intenções eram idôneas e legítimas, mas a falta de conhecimento na época poluía declarações absolutas e poderosas. Acreditava-se que o raro e caríssimo âmbar gris poderia ser obtido caçando baleias cachalotes – uma inverdade, já que o âmbar gris tem seu odor característico somente depois muito tempo flutuando sobre o mar e curado pelo sol, água e ar, sendo encontrado anos depois à beira da praia por pescadores. De fato, o cobiçado musk do veado almiscareiro só pode ser obtido através da caça e abate – prática hoje banida mundialmente. Outro mal-entendido que persevera até hoje é de que os sintéticos usados em perfumes são danosos à saúde. Na verdade, houve um período em que alguns químicos aromáticos cancerígenos eram utilizados (nitromusks, por exemplo), entretanto eles foram retirados da paleta de ingredientes do perfumista há décadas. Hoje tudo é estritamente controlado pela IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias) – ou ABIFRA no Brasil – com tolerâncias mínimas para que não haja qualquer risco ao consumidor, mesmo que ele decida virar um frasco inteiro cabeça abaixo.

Outro mito é de que as casas de fragrâncias ou grifes de perfumes usam sintéticos apenas para reduzir custos. Isso pode ser verdade em muitos casos, mas sintéticos nem sempre são uma opção barata – alguns custam o mesmo peso em ouro. Os que chegam muito próximo de matérias-primas raras e de difícil extração têm custo altíssimo, como ambroxan (âmbar gris), damascona (rosa) e irone (íris). As maiores vantagens no uso de sintéticos são, na verdade, a segurança (fabricados seguindo padrões estritos de qualidade) e a estabilidade (não variam entre lotes ou safras como os ingredientes naturais). No processo de síntese, componentes alergênicos ou cancerígenos são desconsiderados e, quando essenciais, substituídos por moléculas sintéticas. Imagine um perfume aquático que busque reproduzir a sensação de estar de férias na praia. Logo vem à cabeça um aroma marinho e tropical, ao mesmo tempo refrescante e cremoso (protetor solar). Por meio de sintéticos, um perfumista pode compor uma fórmula que chegue muito próximo ao aroma natural de praia, porém este inclui também componentes indesejados como algas, moluscos e excreções, entre outras coisas em estado de putrefação. Para simular o efeito natural, a paleta do perfumista conta com algumas moléculas feitas especialmente para dar um toque "sujinho" à fragrância. Algo fétido em sua forma isolada e que ninguém consiga identificar, mas que faça toda a diferença no resultado final.

Finalmente, há o mito de que perfumes 100% naturais sejam melhores, tanto em desempenho quanto em aroma. Quem já provou um perfume da Lush (Gorilla Perfumes), recentemente trazidos para o Brasil, sabe bem a diferença. Enquanto uma fragrância sintética (a que conhecemos e compramos em perfumarias) é trabalhada para fazer uma transição suave entre o mundo orgânico e artificial, a fragrância que usa muitos componentes naturais costuma ter aspecto medicinal e narcótico, principalmente na saída (os primeiros minutos depois da aplicação). A primeira provada pode ser traumatizante. Aí muitos consumidores reclamam que o perfume é ruim, que é truque de marketing... Não é. Eles são o que prometem ser: 100% naturais. Eles têm seu público cativo, um nicho bem definido, mas estão longe de ser uma tendência e, muito menos, referência para a perfumaria como um todo. Voltando à metáfora inicial, pense na pessoa que está acostumada a tomar suco de caixinha e que resolva tomar um suco de laranja natural, pensando ser a melhor opção. Isso realmente pode lhe fazer um estrago no estômago, assim como uma fragrância orgânica pode assustar um nariz despreparado. Por outro lado, não nego que uma gota de matéria-prima natural possa transformar a mediocridade em obra-prima. Literalmente uma gota em um litro. Parece homeopatia – quanto menor a dose, maior o impacto.



Sobre o colunista convidado

Daniel Barros é Fragrance Coach e escritor especializado em perfumes na Ego In Vitro, uma consultoria que ajuda pessoas a encontrar perfumes de acordo com seu estilo e personalidade. Para isso, ele desenvolveu uma metodologia comprovada de amostras dentre as mais de 1300 fragrâncias de seu acervo. Daniel escreve regularmente sobre assuntos relacionados a perfumes em seu site www.egoinvitro.com.br


Mais Notícias:

Precisamos mesmo de tantos cosméticos?

Artigos

O Romance de um assassinato em massa

Artigos

Nem “Coisas”, nem “Bens móveis”, animais são sujeitos de direito!

Artigos

Você sabia que o seu cosmético pode ter ação hormonal?

Artigos

Para onde vai a água que enxágua sua progressiva?

Artigos

Uma jornada em busca da beleza essencial

Artigos