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Normal não é normal

Por Karin Ricciardi | Arquiteta urbanista

Do nosso nascimento a vida adulta, a partir de  referências, leis, valores morais, códigos sociais, criamos o nosso “normal”. 

A nossa concepção de “normal” nada mais é do que um resumo do usual, daquilo que estamos acostumados a ver ou a vivenciar em nossa rotina. Ou seja, não existe um normal absoluto. Somos nós que determinamos, como indivíduo e sociedade, o que está incluso dentro deste parâmetro aceitável (normal) e o que fica excluído desta classificação.

Portanto, aqui concluímos que o “normal” sempre muda. Mesmo que essa mudança se dê em uma imperceptível escala diária, ela se torna grande entre gerações e toma proporções ainda maiores entre os séculos.

A primeira cruzada, em 1098, devido a inúmeros erros de planejamento e conflitos, acabou em canibalismo. Este destino foi o mesmo de muitos jesuítas em solo brasileiro quando tentaram catequisar as tribos indígenas. 

Até o momento da proibição do comércio e tráfico de escravos, possuí-los como mercadoria era algo habitual e básico em muitas culturas. Haviam mercados e regras, e até mesmo explicação religiosa para tal.

Se nos dias de hoje fosse possível fazer uma viagem no tempo e encontrar com alguém que vive em 1920, imagine como seria explicar para essa pessoa que, no futuro, todos os indivíduos terão um aparelho portátil que pode ser localizado a qualquer momento, por ligação, mensagem ou geolocalização, e que através deste dispositivo será possível acessar dados de qualquer pessoa, anunciante ou empresa via world wide web. Qual seria a reação dessa mesma pessoa ao descobrir que o dinheiro não será mais papel ou metais preciosos, mas apenas um dígito de uma instituição financeira dentro de um sistema virtual? Provavelmente ela reagiria com um misto de pavor e fascinação. 

Por esse motivo, concluo que o “normal” não existe de maneira definitiva como muitas vezes nossas expectativas acreditam, pois mesmo que o indivíduo resista a mudança o grupo vive em constante transformação. 

Às vezes passamos a vida em tentativas constantes de nos encaixar em modelos de existência previamente estabelecidos por nós, ou por terceiros, sem nos questionar se determinado padrão realmente nos cabe ou nos ajuda a alcançar a felicidade e progredir. 

Acredito que isso vem do desejo de estabilidade, da nossa dificuldade de aceitar a instabilidade da vida e a incerteza do futuro. A comodidade também tem um grande papel nisso.

Vivemos acreditando que o mundo nunca mudará, e que os recursos naturais que utilizamos hoje durarão para sempre, como se fossem infinitos. Entretanto, sem perceber, nos acostumamos a uma série de mudanças.

Umas ótimas e outras péssimas.

Chamo a atenção para a qualidade dos alimentos que consumimos. Dentro do sistema que criamos, de rede viária insuficiente e incoerência logística dos grandes centros, perdemos a qualidade dos alimentos. Conservantes, amaciantes e corantes foram a solução. 

Adicionar cloro na água é normal, ter pedaços de insetos e pesticida no chá tem parâmetro aceitável pelo Inmetro. A cada adição ou tratamento químico estamos alterando as propriedades das substâncias que consumimos.  

Alergias, problemas digestivos, inflamações crônicas, câncer e intolerâncias alimentares parecem persistir – e aumentar – mesmo com o avanço tecnológico.

Quando reflito sobre as escolhas, percebo cada dia mais que o “normal” nunca deveria ter sido parâmetro para acolher ou rejeitar uma ideia. Ele é apenas um reflexo de uma época, e nunca um motivo.

Se desejamos um mundo melhor será necessário avaliarmos conscientemente o que contribui para a evolução de uma humanidade mais madura e o que não nos serve mais.

Referências:

http://www.historychannel.com.au/classroom/day-in-history/999/crusaders-become-cannibals

http://chemwiki.ucdavis.edu/Core/Inorganic_Chemistry/Descriptive_Chemistry/Elements_Organized_by_Block/2_p-Block_Elements/Group_17%3A_The_Halogens/Chemistry_of_Chlorine

ANTICANCER: PREVENIR E VENCER USANDO NOS...S NATURAIS

autor: David Servan-Schreiber

editora: Fontanar

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