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O Romance de um assassinato em massa

Por Adriana Leite | Médica Dermatologista e Fundadora

Uma marca brasileira de produção de alimentos criou uma campanha muito veiculada nos intervalos dos jogos da copa: na narrativa frangos felizes são alimentados em uma linda fazenda. O cenário é limpo e em tons rosados e os funcionários usam roupas brancas impecáveis. Na cena a seguir esse cenário se repete, mas os animais são  abatidos, limpos e cortados. No próximo take o frango já aparece temperado em uma bandeja do açougue disponível para compra, onde uma gestante o escolhe. Por fim, na última imagem, já no conforto de sua casa, essa mãe se alimenta do animal, satisfeita com o sabor encontrado, enquanto acaricia o ventre em que carrega uma nova vida.

Pela tranquilidade, essa futura mãe não deve conhecer a realidade da indústria pecuária e avicultura. Uma realidade ética e moralmente errada por dezenas de fatores, a começar pela crueldade com que os animais são tratados, pelos danos ao meio ambiente e pelos produtos de qualidade e higiene totalmente questionáveis para a saúde humana.

Esses animais são mantidos em cativeiro aos milhares e para que, por conta do estresse, não comam uns aos outros, têm seus bicos dilacerados.

Para que cresçam mais rápido são tratados com grãos transgênicos, hormônios e outros químicos que podem impactar diretamente na saúde de quem consome essa carne.

A hora do abate é uma verdadeira linha de produção da morte: os frangos vêm pendurados pelo pé em uma esteira, então são degolados e mergulhados em água quente para depenagem. Ao contrário do cenário limpo mostrado no comercial, há muito sangue, fezes e urina no ambiente. E lavar tudo isso milhares de litros de água são utilizados. Como muitos acreditam, frangos não são somente carne e penas que não tem sangue nas veias, não tem pulmões para respirar, coração para viver, são 'apenas' frangos.

Por fim estes 'frangos-objetos' são então cortados e embalados com MUITO plástico absorvente 'higiênico',  para esconder os resquícios de sangue, o que poderia causar repulsa no consumidor. Afinal, 'que nojo!' dizem alguns ao verem os pedaços de carne mergulhados naquela secreção viscosa que se acumula nas bandejas de inox dos açougues.  

Quanto a futura mamãe, esta segue acreditando ter uma alimentação saudável para ela e para o bebê.

A ignorância é realmente uma benção. Ao menos para a consciência dessa consumidora, que deve dormir super bem à noite e para a indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética que está ganhando rios de dinheiro com tudo isso.

Essas campanhas indecentes invadem nossas casas, mesas e pratos, mas se houvesse transparência e verdade nestes conteúdos, os consumidores saberiam que não há romance na morte e muitos repensariam suas escolhas.

Não há romance no uso indiscriminado de pesticidas, nem nos milhões de litros de água desperdiçados anualmente. Também não há romance nas toneladas de aditivos químicos que evitam que o consumidor sinta o cheiro, sabor e textura da carne apodrecendo e não há romance no acúmulo de plástico que intoxica nosso planeta. Por fim, não há romance no aumento do índice de doenças 'sem explicação'.

Portanto, sugiro que venhamos a buscar por melhores escolhas e que venhamos a cobrar por clareza e transparência nas campanhas publicitárias e produtos que consumimos.

Respeito a todas formas de vida. Humana, animal e do planeta.

E desejo muita saúde a todas futuras mamães que sonham com a chegada de seus filhos saudáveis. Todos merecemos cuidado e respeito.


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