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O sonho acordado de todos nós

Por Adriana Leite | Médica Dermatologista e Fundadora

Gosta de viajar? Já andou de avião? No meu caso, todas às vezes que me vejo dentro de um avião por longas horas, o silêncio e a imensidão do universo na janela me fazem refletir. E essa vez em direção ao Oriente, as diferenças culturais não passam despercebidas. Há sempre o encantamento pelo novo que parece sempre melhor do que já conhecemos. Mas a verdade é que o humano habita o planeta e o que muda são as nuances que manifestamos em cada continente.

Estou a caminho do Japão, japoneses são muito educados, formais, objetivos e regrados. Isso se traduz na organização, na limpeza, no silêncio, nos transportes públicos, na saúde coletiva e na ordem que impera mesmo nas grandes metrópoles, tudo parece funcionar bem.

Olho então para minha realidade conhecida, aliás, conhecida de todos nós, carente de tudo que citei acima. Me questiono: por quê?

Tenho pensado muito na informalidade que temos no Brasil., na falta de compromisso, na falta do caráter e da palavra que vale como documento. Penso no emprego que muitos dizem querer, mas que este emprego não significa também a vontade de conseguir um trabalho, mesmo nesse cenário onde há predominância do desemprego., penso na falta de respeito do espaço do outro, do limite e na tremenda falta da confiança.

Falando em confiança...  Li numa revista europeia que os jovens holandeses responsáveis pela criação do WeTransfer® (aplicativo que encurta o tempo de transferência de arquivos pesados) faturaram 22 milhões de euros em 2016. Esperava-se que fosse anunciada sua aposentadoria precoce para viver o "dolce far niente", ledo engano. Os rapazes de trinta e poucos anos disseram que este dinheiro é a base de um sonho que está apenas começando, uma vez que querem continuar a estimular o potencial criativo das pessoas, (no tempo que você espera o seu arquivo ser transferido eles vendem este espaço para artistas/criadores compartilharem seus trabalhos como telas de descanso) e assim facilitar a vida para que todos tenhamos mais tempo livre. Para completar o fundador cita que o sucesso de seu trabalho se baseia em CONFIANÇA. Confia no produto que vende, confia também em si próprio e estimula que todos confiem uns nos outros. Lindo de se ler! Tento combinar isso entre culturas Japão - Holanda - Brasil e mais me parece uma receita de bolo que nunca vai dar certo. Como?

No Brasil, a cada dia que passa, confiamos menos, nos afastamos mais e nos fechamos no nosso cotidiano para nos proteger da melhor forma que podemos, vivemos o abandono. Basta observar a justiça feita com as próprias mãos que acontece diariamente nas areias das praias do Rio de Janeiro, quando não há policiamento para barrar os arrastões de verão, violência x violência.

Nosso momento político se assemelha a um barco ligado no piloto automático, mas com direção incerta.

Se por um lado a rigidez e controle traz um povo que funciona, há também a consequência da tristeza.: O Japão é um dos países com maior índice de suicídios no mundo. Aproximadamente, setenta pessoas se suicidam ao dia. Estudos apontam que grande parte  dessas mortas esta ligada ao regime de trabalho que permite horas extras abusivas, sem descanso, se estendo as escolas também, já que entre os dias 31 de agosto a 2 de setembro (início do segundo semestre), cerca de quinhentos jovens entre 10 e 19 anos tiram suas vidas.

Percebemos assim, que nada ao extremo é realmente bom.

Do outro lado temos no Brasil a desorganização extrema, coroada por uma falta de respeito sem limites. Tempos de “tudo pode, tudo vale” e “se for bom pra mim o que importam as consequências?”. Recentemente vivi na pele o sentimento de ser trapaceado, e isso hoje parece ser a regra, não mais a exceção.

Imagino que a maioria que está lendo isso agora, pensa e se identifica: “já aconteceu comigo”, “eu também", "quem nunca!". Falamos pelas mídias sociais, mas deixamos o olho no olho, que é o que serve de termômetro para fazer a leitura de quem está em nossa frente. Se presencialmente erramos nesse entendimento, imagine através de e-mails e WhatsApp.

Quem está do outro lado? Você acredita em tudo que lê ou vê no Facebook, Instagram, Snapchat? Até usar foto de outra pessoa, como fosse sua, para mostrar que está vivendo momentos luxuosos, fingindo ser quem não é, já aconteceu no Facebook.

A frustração pode levar as pessoas a procurar meios ilícitos de se darem bem, com pouco esforço. Quantos novos golpes na web surgem todos os dias? Alguns muito perigosos e graves, agora regados à tecnologia de ponta.

Volto então para Europa e Ásia,um exemplo simples: Já imaginou um país sem cachorros de rua? Pois é, isso existe! A Holanda não exterminou seus cães, mas optou por um controle populacional com castrações, construção de abrigos e apoio à educação nas escolas sobre adoção responsável e rígido combate da venda de animais de estimação.

No Japão também não há cachorros ou gatos na rua, mas não por conta de um controle populacional e castração como na Holanda. Para os japoneses os animais são um objeto, um acessório de moda e quando esta passa, e passa muito rápido, eles deixam os animais em canis, ou se os deixam nas ruas a prefeitura passa e os recolhe. Quando são deixados no canil, os animais têm 3 (três) dias para conseguirem um encaminhamento para alguma ONG, ou uma adoção. Se isto não acontece, eles vão para uma câmera de gás.

Em média 70% dos animais são sacrificados. As ONG’s atualmente estão intensificando a conscientização da população, visitando escolas, palestrando e mostrando o que de fato acontece quando o animal é deixado num canil.

Não precisaria dizer que nosso país, mesmo com 30.000.000 (trinta milhões) de animais nas ruas, continua com pet shops e criadouros lotados de filhotinhos adoráveis para serem vendidos como balas, mas com preços de joias. E depois se cuidar do bichinho for muito trabalhoso, basta abandoná-lo na rua.

Somos todos coniventes, se gostamos de ter ou ver animais em gaiolas, aquários e zoológicos. Se não tem quem compre, não há mercadoria a ser vendida. Não compre,adote. Por isso, cuide e seja responsável. Simples assim.

Completo minha reflexão com a matéria que li ontem no The New York Times, sobre os rodeios no Brasil. Com tantos assuntos interessantes a serem falados, a escolha foi dizer que é essencial andar vestido e se comportar como um cowboy estilo americano, afinal, essa é a "cultura" do agronegócio. E ainda, que é necessário comer carne, pois essa é a única fonte de alimento para a população no Brasil.

Eu sou vegetariana por opção consciente e todo brasileiro deve comer carne??? Quanta informação! Melhor seria ficar de boca fechada. Apenas lamentei a total falta de cultura do cidadão. Espero que ele saiba que não representa milhões de brasileiros.

Qual seria a equação correta de uma nação bem sucedida?

Formalidade + educação + respeito + rigidez?

Informalidade + educação + respeito + leis claras e aplicáveis (e aplicadas)?

Com certeza informalidade + ignorância (leia-se falta de educação básica e respeito às leis) + corrupção é uma combinação bombástica, e que nunca vai funcionar.

Quero me orgulhar da terra que nasci e amo. Questiono para poder incentivar e progredir na mudança, colaborar com ela, compartilhar com todos as informações que aprendo com as oportunidades que a minha educação e estudo me proporcionam, mas que outros ainda não tiveram ou puderam.

Meu pai sempre dizia: "Filha, sempre haverá quem tenha menos que você e quem tenha mais do que você. Por isso, seja generosa e ensine o que aprendeu aos que menos tem e não inveje quem tem mais. Se espelhe naqueles que tem verdadeira coragem de lutar e buscar seus sonhos, pois estes são os ricos verdadeiros".

Aproveito então para parabenizar o jovem e dedicado rapaz de Embu das Artes, que estudou muito e foi aceito em Yale, uma das melhores universidades do mundo, apesar de seus pais acharem que ele deveria seguir o curso natural da vida de quem vive na periferia e desistir do sonho. Sonhou acreditou e buscou. Ele deve ter também os princípios de meu pai! Acredite em seus sonhos! Se mexa, lute, estude, leia!

Eu acredito nos meus, luto por eles e estou vivendo mais um deles conhecendo o Japão. A vida é curta!

Dedicado a você meu pai!

Agora vou, o mundo me espera lá fora. Arigatô.


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