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Os riscos do uso de dermocosméticos sem prescrição

Por Celso Pieralini | Médico Dermatologista

Durante muito tempo a prescrição dermatológica foi exclusivamente composta por medicamentos.

Nas últimas décadas observamos uma mudança no padrão do receituário dermatológico que hoje se compõe de medicamentos e produtos cosméticos. Essa alteração deve-se a inúmeros fatores ligados à necessidade médica em tornar sua prescrição diferenciada e com maior efetividade terapêutica, à solicitação dos próprios pacientes e ao desenvolvimento e avanço da indústria cosmética.

Segundo a definição de Produtos Cosméticos são “preparações constituídas por substâncias naturais ou sintéticas, de uso externo nas diversas partes do corpo humano, pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral, com o objetivo exclusivo ou principal de limpá-los, perfumá-los, alterar sua aparência e/ou corrigir odores corporais e/ou protegê-los ou mantê-los em bom estado”. A tais produtos não deveríamos atribuir indicações terapêuticas, contudo na pratica dermatológica, nós dermatologistas nos deparamos com uma realidade e uma necessidade que foge do conceito e da própria atribuição dessa categoria de produtos. Sabemos que um produto cosmético pode ser utilizado na prevenção e auxilio do tratamento de diversas patologias dermatológicas com segurança e eficácia comprovadas. Devido a tal fato, os cosméticos prescritos por dermatologistas receberam várias denominações. No passado Cosmecêuticos e atualmente Dermatocosmético.

Os dermatocosméticos enquadram-se dentro da Classe Grau 2 de produtos cosméticos cuja formulação cumpre com a definição adotada na RESOLUÇÃO DA DIRETORIA COLEGIADA - RDC Nº 7, 10 DE FEVEREIRO DE 2015 – Anexo I e que possuem indicações específicas, cujas características exigem comprovação de segurança e/ou eficácia, bem como informações e cuidados, modo e restrições de uso, conforme mencionado na lista indicativa "LISTA DE TIPOS DE PRODUTOS DE GRAU 2" estabelecida no item "II" desta resolução.

Os critérios adotados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para definir essa classificação foram em função da probabilidade de ocorrência de efeitos não desejados devido ao uso inadequado do produto, sua formulação, finalidade de uso, áreas do corpo a que se destinam e cuidados a serem observados quando de sua utilização.

Sabido que cada vez mais esses produtos apresentam indicações específicas de uso, de acordo com as condições da pele na qual esse produto será aplicado, cabe a nós dermatologistas estudiosos e conhecedores do maior aparelho do corpo humano, o Sistema Tegumentar, indicar com precisão a utilização de um determinado produto. Tendo ciência que o melhor resultado de um objetivo seja preventivo, curativo ou a melhora do estado geral da pele, que se traduz numa melhor qualidade e expectativa de vida, se inicia a partir de uma indicação precisa, devemos cada vez mais valorizar o nosso receituário.

Tal valorização só é possível a partir de um amplo conhecimento técnico dos produtos que prescrevemos.

É de suma importância conhecermos cada matéria-prima utilizada na formulação de um produto. Informações em relação aos seus dados toxicológicos, potencialidade de teratogenicidae, carcinogenicidade, potencial de irritabilidade, sensibilização cutânea e/ou ocular, fototoxiciodade, fotoalergia, potencial comedogênico e possíveis efeitos sistêmicos são necessárias (imprescindíveis).

Será que somente a partir desses conhecimentos iremos conhecer a real segurança de uso do produto acabado que prescrevemos?

Não!!!

Essas informações limitam-se somente à segurança do produto quando aplicado em condições normais e previsíveis de uso na pele do paciente.

Não podemos pensar que a segurança do produto somente limita-se ao consumidor final, mas também no impacto que o desenvolvimento desse produto ocasiona ao nosso ecossistema no momento do seu desenvolvimento, como o impacto ambiental ocasionado pela sua utilização e pelo descarte.

Agora tendo ciência da amplitude do conceito de segurança de produto, devemos voltar ao questionamento inicial que refere-se àquilo que nós dermatologistas mais nos preocupamos, que é a manutenção da saúde dos nos nossos pacientes, que só acontece à medida que os conhecemos individualmente.

Cada paciente possui necessidades próprias que variam de acordo com sexo, idade, etnia, hábitos, comorbidades, tipo de pele. Entender essas necessidades permite a escolha de um dermocosmético apropriado que garantirá a sua segurança de uso e a eficácia almejada.

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