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Sobre o consumo consciente

Por Dra. Fernanda Bayeux | Advogada

Durante a maior parte da história moderna, após uma catástrofe (sendo a guerra a maior de todas elas) as pessoas foram sempre chamadas a fazer sacrifícios pelo bem da nação, e atos consumistas de qualquer natureza estavam praticamente vetados. Todavia, nos dias seguintes ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 pudemos observar a primeira grande mudança nessa dinâmica. Os líderes do governo americano saíram em público para pedir que todos mantivessem seus níveis de consumo no mesmo patamar que antes da tragédia. De repente, uma Paris Hilton gastando mais de vinte mil dólares em menos de uma hora tornou-se expressão de patriotismo e não de consumismo fútil. E por que? Porque a estabilidade dos Estados Unidos dependia, e depende, de níveis de consumo cada vez maiores, tanto internos quanto externos. Hoje, não restam mais dúvidas de que o comportamento dos consumidores é uma das forças motrizes da economia contemporânea. 

Como advogada, procurei sempre participar de iniciativas ligadas ao desenvolvimento sustentável. Eu acreditava que a melhor forma de fazer a diferença era através do meu papel como cidadã e agente de pressão aos poderes públicos. Passados alguns anos, percebi que não era mais suficiente agir "da porta para fora". Se eu queria um mundo diferente, as escolhas que eu fazia na minha vida privada, como consumidora, também importavam. E muito.

De fato, nossa faceta consumidora nos brinda com muitas oportunidades para lutar por um mundo mais justo. Só que, para sermos propulsores de uma mudança efetiva, temos que conhecer o consumo não só do ponto de vista dos clientes ou fornecedores, mas também em seus aspectos históricos, sociológicos, antropológicos, organizacionais, etc. A partir daí, com consciência e agindo em conjunto com outros players do mercado, podemos aumentar exponencialmente o impacto de nossas ações.

Ser um consumidor consciente e disposto a exercer sua fatia de poder já tem um nome específico: consumerismo[1]. Essa expressão vem do inglês consumerism, e pode ser entendida, de forma bem ampla, como consumo sustentável; consumo ético; consumo responsável; organizações de consumidores e movimentos sociais focados no consumo. De fato, o resultado mais visível da ação consumerista ocorre quando, além de preço e qualidade dos produtos, critérios adicionais como ética, justiça e meio-ambiente influenciam significativamente a decisão final de compra de um grupo de consumidores. E se este grupo estiver organizado e dialogando com seus pares e fornecedores/produtores... tanto melhor!

A Cosm-Èticos é uma das mais recentes, e bem-vindas, expressões do consumerismo no Brasil, e todos queremos que essa iniciativa seja um grande sucesso! Minha intenção é, nesse espaço, compartilhar com vocês todas as possibilidades que o consumerismo pode nos trazer, para ajudar nossa causa, com foco na minha especialidade, que é o direito. Se não vamos mudar o mundo através do que compramos, podemos mudar pelo menos alguma coisa ao consumir conscientemente. E quando, como parte de um movimento organizado, deixamos de comprar um produto porque ele contraria nossos princípios éticos, nossa mensagem é ainda mais forte. Hello Paris Hilton, that´s REALLY hot!!



[1] A expressão "consumerismo" representa um fenômeno muito recente na nossa sociedade. Assim, alguns autores a utilizam a como sinônimo de consumismo (esse é o caso de Peter Steams, em seu livro Consumerism in World History), outros como antônimo. Em meus artigos para o Cosm-ético, irei utilizar a expressão conforme definida no livro The Ethical Consumer, por Tim Lang e Yiannis Gabriel. 

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