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Uma jornada em busca da beleza essencial

Por Adriana Leite | Médica Dermatologista e Fundadora

Vivemos em um período de transformação. É perceptível o esgotamento de várias fontes de recursos naturais, o que vem acarretando em mudanças negativas no meio ambiente e afetando diretamente a nossa qualidade de vida.

Por muito tempo não se considerou as possíveis consequências dos ingredientes cosméticos, uma vez que pareciam ser inócuos a nossa saúde e ao meio ambiente. Entretanto o tempo mostrou que vários ativos tem dois lados, podendo provocar alterações na saúde e afetar o planeta.

Hoje há uma onda de questionamentos quanto à segurança dos ativos cosméticos e uma maior exigência dos consumidores em entender o que estão comprando. A curiosidade em entender rotulagens, seja de alimentos ou de cosméticos, passou a ser frequente.

Desta onda surgiu uma grande demanda por cosméticos "naturais" e de nicho, como os cosméticos orgânicos e veganos, produtos dos quais se exige critérios muito mais elaborados para serem reconhecidos como tal, inclusive o aspecto ético de não conter ingredientes de origem animal, nem tampouco, serem testados em animais.

Esse movimento trouxe destaque ao termo “sustentabilidade”, uma vez que, para ser "ecologicamente correto", obrigatoriamente havia a necessidade de um novo olhar sobre a origem dos ativos cosméticos: de onde vem, como são produzidos, como são testados e como impactam no meio ambiente.

Um bom exemplo é a recente preocupação quanto às microesferas de polietileno. Micro partículas consideradas, até então, ingênuas, se tornaram "vilãs do mar de plástico” na Europa e Estados Unidos. Tal fato acarretou em seu banimento da indústria cosmética e estimulou a volta do uso de esfoliantes de origem natural*.

Quanto a mim, despertei para estas questões anos atrás, observando reações irritativas e dermatites inexplicáveis que alguns pacientes apresentavam. Formulações aparentemente inocentes não justificavam quadros tão exacerbados. Estudando sobre, encontrei vários relatos de sintomas semelhantes provocados, na maioria das vezes, por conservantes consagrados, como os polêmicos parabenos. Entretanto, assim como as fragrâncias, os parabenos contam com inúmeros ingredientes em sua formulação, então, como saber qual o químico responsável pelo problema?

Esses estudos me levaram a uma maior proximidade da indústria cosmética e dos fabricantes e distribuidores de ativos cosméticos. Comecei a visitar as fontes e buscar as minhas respostas na origem. Este ano, me dediquei especialmente a mergulhar nos quatro continentes e entender as semelhanças e diferenças entre os mercados. Estive no Japão, Holanda, Alemanha, Orlando, Nova Iorque, Inglaterra, Genebra, Portugal, Mônaco e França.

Como tenho um particular interesse pelos métodos alternativos, em Mônaco destaco minha visita ao laboratório Exsymol, que me chamou a atenção por não fazer testes em animais, quesito essencial para fazer parte de meu receituário. Lá utiliza-se uma cadeia de produção que respeita o meio ambiente, os funcionários (acredite, ainda existem indústrias coniventes com trabalho escravo) e o ciclo de obtenção de matéria-prima, sem esgotamento da fonte original, através de biossíntese. Pude participar dos estudos desenvolvidos pela empresa usando modelos de pele artificial, além dos modelos computacionais, que são ainda mais fidedignos e seguros, pois traduzem os reais resultados de eficácia no corpo humano, sem provocar mortes. Gostei muito do que vivenciei.

Entender essa realidade fez com que eu mudasse completamente minha maneira de elaborar as receitas de meus pacientes. Mergulhei na origem farmacológica dos ativos e sua origem, método de obtenção e como foram testados. Para uma amante da natureza e dos animais, prescrever um ativo cosmético testado em centenas de vidas inocentes seria totalmente contraditório.

Optei em não ser mais conivente com os equívocos da indústria cosmética e essa busca me levou a estudar os métodos alternativos ao uso de animais, área em que, atualmente, dedico especial atenção. Um grande bônus foi que essa pesquisa me levou a conhecer a origem dos ativos, o que me revelou quantos são desnecessários, ineficazes, ou até que não possuem qualquer comprovação científica.

A classe médica precisa estar atenta e ser mais questionadora, ao invés de apenas aceitar tudo passivamente e acabar prescrevendo ativos que, ao invés de “mocinhos”, são verdadeiros “vilões”.

Ainda pretendo visitar muitos outros destinos como a Coreia, Tailândia, Seattle, Israel, entre outros, onde tenho sido convidada para palestrar, conhecer os fabricantes de insumos, visitar feiras globais para estar inteirada dos movimentos que a indústria cosmética tem apresentado e prospectar uma evolução ética e coerente, afinal, “beleza” não combina com a prática de produzir produtos ineficazes, que possam causar dano, seja à vida humana, animal ou ao meio ambiente.

Que venhamos todos juntos buscar o verdadeiro sentido da palavra "sustentabilidade" para que ela não caia na vala comum dos termos usados como "commodities" para parecer ser correto sem verdadeiramente sê-lo.

Continuarei minha busca por empresas responsáveis, comprometidas em oferecer ciência, ética e sem crueldade.

Para ficar por dentro de todas as minhas descobertas, continue acompanhando este espaço, no qual me dedicarei a compartilhar o resultado de todas as pesquisas com consumidores-pacientes, classe médica e farmacêutica. Será ótimo tê-los comigo nessa jornada!

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*O termo Natural é um tanto perigoso, pois existem inúmeras interpretações, e também usos abusivos e controversos nos rótulos de muitos ativos e cosméticos, que podem levar o consumidor a comprar "gato por lebre". É importante entender que o fato de ser "natural" não necessariamente significa seguro ou livre de reações. Mas esse capítulo fica para uma próxima, já que temos muito a falar sobre o tema.

Adriana Leite é Médica Dermatologista e fundadora do portal cosm-eticos.org


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