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Vascular Endothelial Growth Factor

Por Dra. Maria Inês Harris (Convidado) | Química


Há cerca de seis anos fui procurada por uma empresa da área farmacêutica, que me consultou sobre a segurança do uso de fatores de crescimento em produtos cosméticos.

Naquela época, pouco se falava dissono país, mas estavam disponíveis alguns estudos clínicos que mostravam resultados promissores para alguns deles, como por exemplo o Insuline Like Growth Factor, que é um ingrediente que pode ser considerado um agente terapêutico seguro e bem tolerado.[1]  Estudos clínicos com outras finalidades que não cosméticas levaram à exposição de indivíduos a doses de até 50 µg/kg pc/dia  subcutâneo, duas vezes por dia, durante 2 anos, havendo pouca ocorrência de eventos adversos.[2]

Outros hormônios como o Basic Fibroblast Growth Factor – bFGF (CAS 103107-01-3), Epidermal Growth Factor – EGF (CAS 62253-63-8) e Acidic Fibroblast Growth Factor – aFGF (CAS 104781-85-3) já mostravam suas potencialidades em termos de regeneração cutânea, sendo utilizados no tratamento de ferimentos crônicos e queimaduras. [3], [4], [5]

Contudo, um dos ingredientes que avaliei à época me deixou muito preocupada. O Vascular Endothelial Growth Factor – VEGF (CAS 127464-60-2), um hormônio que usualmente não está presente em quantidades significativas em indivíduos sadios.[6]

Produzido pelos queratinócitos, o VEGF sua ação sobre os melanócitos:  sua presença modula a super-expressão dos receptores VEGFR-1 e VEGFR-2 nos melanócitos.[7] Além disso, há indícios de que a superexposição à radiação UV estimula os fibroblastos a também produzirem VEGF, ocasionando a dilatação de microvasos que é observada na pele fotoenvelhecida.[8]

Além de estar diretamente envolvido nos processos relacionados ao envelhecimento cutâneo, a produção e liberação do VEGF são associadas diretamente àquelas patologias nas quais o aumento da vascularização leva a comprometimentos orgânicos como por exemplo a neovascularização de tumores, a retinopatia diabética[9] e a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI), sendo o uso de substâncias anti-VEGF úteis no combate a carcinomas de pele[10] e no tratamento da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI)[11], por exemplo.

A proposta que me foi apresentada à época para o uso desse tipo de ingrediente seria promover o crescimento de pelos, e especialmente indicado para aplicação nos cílios, e alguns estudos preliminares em humanos mostravam a clara eficácia do ingrediente nesse quesito, evidenciando além do efeito em si mas também a boa disponibilidade que o mesmo apresenta pela aplicação tópica.

Porém, considerando que a presença do VGEF em si é um problema, que o principal usuário de produtos para espessar cílios seriam pessoas já com idade mais avançada nas quais a degeneração macular é mais provável, além de outros usuários sensíveis como diabéticos, que representam quase 20% da população acima de 35 anos, recomendei à empresa que não fizesse uso desse material.

O Cliente então não lançou a linha, mas para minha surpresa venho observando o crescimento da indicação desse ingrediente pelas farmácias de manipulação, que promovem a matéria-prima para dermatologistas, que por sua vez indicam o produto para seus clientes sem ter ciência dos riscos a longo prazo oferecidos.

Não se trata de um ingrediente cosmético na concepção do termo: ele altera a bioquímica e apresenta efeito farmacológico. É, portanto, um típico ingrediente que acaba sendo inserido no rol dos “cosmecêuticos”: cosmético para efeitos regulatórios mas produto farmacêutico em termos de atividade.

Além disso, é viável considerar que em muitos casos haverá uso crônico, o que só piora o quadro de risco a longo prazo, especialmente aqueles referentes à perda de visão ou potencialização de carcinomas cutâneos, nem sempre detectados rapidamente.

Não estão disponíveis dados de segurança do ingrediente, mas as informações disponíveis sobre seu mecanismo de ação são claras e o mesmo é um risco e não pode ser considerado seguro, mesmo que o efeito imediato seja atrativo.



[1] Traynor, B.J e col. Neuroprotective agents for clinical trials in ALS. Neurology 67: 20-27, 2006.

[2] Sorenson, E.J. e col. Subcutaneous IGF-1 is not beneficial in 2-year ALS trial. Neurology 71: 1770-1775, 2008.

[3]Kälicke, T. e col. Local application of basic fibroblast growth factor increases the risk of local infection after trauma. Acta Orthopaedica 78 (1): 63–73, 2008.

[4]Viswanathan , V. A Phase III Study to Evaluate the Safety and Efficacy of Recombinant Human Epidermal Growth Factor (REGEN-D™ 150) in Healing Diabetic Foot Ulcers .Wounds. 18(7): 186-196, 2006.

[5] Bing, M. e col. Randomized, multicenter, double-blind, and placebocontrolled trial using topical recombinant human acidic fibroblast growth factor for deep partial-thickness burns and skin graft donor site. Wound Rep Reg 15:  795–799, 2007.

[6] DUQUE, José Luis Ferreira et al. Measurement of plasma levels of vascular endothelial growth factor in prostate cancer patients: relationship with clinical stage, Gleason score, prostate volume, and serum prostate-specific antigen. Clinics  61 (5): 401-408, 2006.

[7] Kim, E.J e col. Modulation of vascular endothelial growth factor receptors in melanocytes. Exp Dermatol. 14(8): 625-33, 2005.

[8] Trompezinsky, S . e col. UV radiation and prostaglandin E2 up-regulate vascular endothelial growth factor (VEGF) in cultured human fibroblasts. Inflamm Res. 50(8): 422-7, 2001.

[9] Valiatti Fabiana Borba, Crispim Daisy, Benfica Camila, Valiatti Bruna Borba, Kramer Caroline K., Canani Luís Henrique. Papel do fator de crescimento vascular endotelial na angiogênese e na retinopatia diabética. Arq Bras Endocrinol Metab  [Internet] 55( 2 ): 106-113, 2011.

[10] Conti, C.J. Vascular endothelial growth factor: regulation in the mouse skin carcinogenesis model and use in antiangiogenesis cancer therapy. Oncologist. 7 Suppl 3: 4-11, 2007.

[11] Schmidt-Erfurth UM, Richard G, Augustin A, Aylward WG, Bandello F et al. Guidance for the treatment of neovascular age-related macular degeneration. Acta Ophthalmogica Scandinavica 85: 486-494. 2007.


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