Dermatologia e Ciência

A formação docente, a consciência ética e o uso de animais: há realmente um ponto de intersecção?

Por Dra. Maria Inês Harris (Convidado) | Química

Hoje venho colocar mais perguntas que informação, pois acontecimentos recentes me fizeram olhar para o mundo com uma abordagem mais plena e distante. Minha intenção é muito mais promover o início de uma discussão sobre um tema específico, provocar uma reflexão talvez não tão amena, mas sem dúvida necessária.

Considero importante que não fiquemos apenas nos debates sobre o que pode ou não ser utilizado no lugar dos testes em animais, mas principalmente que consideremos o cerne marcante que definirá o futuro dessa luta: o padrão ético inserido no seio da sociedade brasileira, para não dizer na humanidade.

Diversos valores éticos, não apenas a valorização da vida, têm sido deixados de lado há uma longa data, e pessoalmente eu mesma já vivi situações complicadas em que nem sempre é fácil definir um lado dito correto ou acertado. Mas hoje tive uma rápida conversa com uma conhecida, que prefiro não identificar aqui por razões óbvias, mas que me alertou sobre diversos pontos.

Durante nossa conversa, na qual ela comunicava ter sido aprovada para o mestrado no programa de fisiologia em uma conceituada Universidade Federal, a mesma mencionou que iria poder se vingar “colocando os ratinhos na esteira para ficar olhando”, ao que completou com risos.

Imediatamente, diante de tal absurdo, me manifestei sobre a não necessidade dos ensaios em animais, mas as respostas foram de que ela não estabelecia as metodologias e apenas obedecia, e de que precisava do diploma de Stricto sensu para poder dar aulas, atividade que ama.

Não respondi mais nada, e estou aqui até agora perplexa e incomodada com essa conversa, vinda de alguém jovem (ela tem cerca de 35 anos), atuante na área de saúde, beleza e bem -estar e que declara seu grande amor à docência e que, pelo que pude entender, justificaria qualquer coisa.

Muitas questões me vieram à cabeça, e até agora busco racionalizar a enxurrada de emoções que invadiram o meu pensamento.

Que tipo de formação essa pessoa teve na sua graduação, para que se considere no direito de mencionar com tanto desdém o descarte das vidas desses animais apenas para assegurar que possa ter seu diploma de Stricto sensu e poder perpetuar esse pensamento retrógrado da necessidade de ensaios em animais?

Qual o tipo de informação que ela já conhece em seus estudos de caso, no qual poderia “validar” com a condução de ensaios em animais? Ensaios clínicos controlados e padronizados não seriam muito mais confiáveis e úteis para a real validação das técnicas propostas?

Como estão realmente sendo avaliados os projetos de pesquisa animal pelas Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) e que tipo de critério é usado para se assegurar que os métodos empregados nos estudos em animais não possuem realmente metodologias alternativas, de modo que justifique seu uso conforme disposto na própria regulamentação?

No final das contas, me veio uma nítida sensação de que, embora estejamos sempre lutando pelo banimento dos ensaios toxicológicos em animais, estamos nos esquecendo que outras áreas, como por exemplo a área de Dermato Funcional e Fisiologia do Exercício, usam esses animais até com menos critérios e necessidades, visto que em muitos casos, são realizados estudos para adaptar condições frequentes no ser humano, que seriam idealmente avaliadas na população humana diretamente, especialmente no caso de validação de técnicas e equipamentos que já se encontram disponíveis e operantes em clinicas médicas e de estética.

Minha provocação é para que possamos, a partir de agora, inserir pelo menos duas pautas importantes em nossas discussões:

1)  Discussões mais aprofundadas e alertas aos consumidores sobre o uso de animais em outras atividades relacionadas às Ciências da Beleza, na comprovação de segurança e benefício de técnicas, procedimentos e equipamentos;

2)  Discutir a questão dos critérios utilizados nos comitês de ética em pesquisa animal, que acabam por “legalizar” (no sentido de dar caráter de obediência à lei) ensaios que há muito deveriam ter sido banidos, posto claro, se houver outras alternativas para a execução sem o uso de animais.

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