Dermatologia e Ciência

Desafio: desenvolver meu primeiro perfume 100% sintético

Por Daniel Barros (Convidado) | Perfumista

Como já explicado em um artigo anterior, existe um mito popular de que perfumes naturais são melhores e menos propícios a reações alérgicas, tais como dermatites de contato. O fato é: químicos aromáticos, que substituem óleos essenciais, são sintetizados em laboratório já com a finalidade de serem usados na perfumaria fina e, portanto, sem risco à nossa saúde.

A forte escassez de matérias-primas

Além dos problemas higiênicos, existe ainda a questão da escassez de matérias-primas naturais. Quanto mais natural for o perfume, menos sustentável. Vale frisar que não estou sequer falando de extratos de animais silvestres como civeta (um felino selvagem africano) e castor, mas sim de ingredientes em extinção como o sândalo indiano e o pau rosa brasileiro.

Felizmente, existem moléculas fragrantes feitas em laboratório que podem substituí-los. Um bom exemplo é o Clearwood, que substitui o patchouli – essa planta passou por um período de escassez há exatos dez anos, virando a perfumaria mundial de cabeça para baixo. Hoje existem diversos substitutos para o patchouli no universo sintético.

O desafio sustentável 

Considerando todo o cenário da indústria de perfumes, topei o desafio de conceber meu primeiro perfume 100% sintético. A primeira etapa do desafio foi construir mentalmente uma fragrância que possa ser tão boa quanto qualquer best-seller de perfumaria, sem um aspecto químico desagradável. É importante deixar claro que ser sintético não significa ter odor de aspecto sintético. Felizmente, graças ao avanço da indústria hoje isso é possível, e as possibilidades são praticamente infinitas.

No meu caso, como sou apaixonado por odores polvorosos (vulgo atalcados), decidi preparar uma composição centrada em notas de íris e violeta, cujas notas são popularmente conhecidas por azuis e com um perfil romântico, para alguns melancólico. Para a saída, eu escolhi uma nota de limão e, para o dry-down, notas de patchouli, couro, baunilha, amêndoas e almíscar. Tudo sintético, eu garanto.

O resultado foi fascinante. Consegui chegar a um perfume que não deixa nada a desejar para as grandes grifes importadas tanto em termos de qualidade do aroma quando em desempenho de difusão e lasting. Finalmente a teoria saiu do papel e posso sentir o resultado na prática, na minha própria pele.

Sim, com dedicação e vontade de fazer a diferença, é possível trabalharmos com a perfumaria de forma sustentável, com zero dependência da natureza, seja fauna ou flora.

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