Dermatologia e Ciência

O melhor cosmético do mundo: sua consciência

Por Adriana Leite | Médica Dermatologista e Fundadora

Revelando minha identidade

Quando criei a Cosm-éticos, meu objetivo maior sempre foi torná-la um canal de referência para estimular as pessoas a pensarem: qual seu papel no consumo? Principalmente relacionado a minha área de atuação, uma vez que sou dermatologista.

Sabemos que o mercado de cosméticos, no Brasil e no mundo, movimenta uma das maiores receitas, pois é da natureza humana buscar a boa aparência e o bem-estar. Sendo assim, mesmo em épocas de crise como a que estamos ainda atravessando, este mercado pode até desacelerar mas é o único que não para. As pessoas podem consumir menos, mudar de marca, mas se não compram o perfume caro, a maquiagem desejada, o cosmético novo que saiu na mídia, vão se contentar com um batom, um esmalte ou até um shampoo. Brasileiros e brasileiras são vaidosos e em época de custos reduzidos manter a autoestima em alta, passa a sensação de que a vida fica melhor. Será que fica mesmo?

Quando falo em repensar, questiono se aquela compra por impulso não se tornará mais um objeto de descarte futuro. Quem não tem esmaltes ressecados, maquiagens que mudaram de cheiro e de cor, que nunca saíram da bancada ou da gaveta? Cosméticos que mudaram de textura, perfumes que mudaram de cheiro, shampoos acumulados pela metade no chuveiro.

Sim, todos nós somos potenciais acumuladores de produtos químicos e embalagens. Sem falsa demagogia, cada um compra aquilo que deseja e pode, mas onde está o problema então?

Responsabilidade

Somos todos corresponsáveis no processo de poluição do mundo, inclusive no aspecto ambiental. Ou você se preocupa em descartar seu shampoo corretamente? Já pensou o que um esmalte de 10ml de químicos, fazem com o solo quando você o joga no lixo? Batons, rímeis, sombras, bases, hidratantes, esfoliantes, cremes que prometem milagres que não são cumpridos, todos esquecidos e depois jogados onde? No lixo.

E aquele produto caríssimo que vem embalado num potinho lindo e minúsculo, dentro de uma caixa grande, cheia de plástico ou papelão ao redor para acondicioná-lo. Depois mais caixinha, mais plástico transparente, mais selinho dourado dentro de uma sacolinha de luxo, mais papel de seda para a caixinha não correr dentro da sacola e talvez, um pouco mais de fitas de cetim para ficar bonito. Quem nunca escutou a máxima "às vezes a embalagem é melhor que o produto"? E o que você faz com tudo isso?

Em casa temos um problema. Eu separo quase tudo, desde garrafas até potinhos de plástico, e penso como reaproveitar as lindas embalagens que tenho. Afinal, trabalho nesse mercado.Tudo começou com minha mãe, que chega a transportar o lixo reaproveitável no carro, para levar em postos de coleta, uma vez que na região em que ela mora, isso só existe na teoria.

Cosm-éticos

E assim nasceu a Cosm-Éticos. Uma organização feita para que eu e outras pessoas pudessem compartilhar questionamentos, buscando levar para a indústria, da qual sou tão próxima, propostas e soluções que busco viajando pelo planeta, para que possamos todos rever nossas responsabilidades e nosso papel na cadeia produtiva. Com meus pacientes, parceiros e amigos, compartilho uma nova maneira de pensar e consumir. Ao se identificarem em algum momento com minhas iniciativas, naturalmente retornam, se dizendo orgulhosos em como estão se sentindo melhor ao repensar a maneira de consumir cosméticos. Além do aspecto ético, de se respeitar e respeitar as outras espécies. 

Nenhum consumidor quer ser ludibriado por produtos que prometem maravilhas e não passam de formulações comuns e banais. Nenhuma pessoa consciente quer usar produtos que tenham ingredientes questionáveis quanto sua procedência ou qualidade. Ainda mais se estes tiverem sido testados de maneira cruel em animais de laboratório. Escuto muito: “Mas isso ainda existe?” ou “Ninguém mais testa em animais!”. 

Desculpe, mas isso é um texto lindo para deixar você consumidor mais confortável, pois se assim fosse, biotérios não existiriam mais (onde são “produzidas” as cobaias), empresas aéreas não mais os transportariam em caixas em seus porões entre estados ou até países. Recentemente um simpósio importante da indústria cosmética revelou em uma palestra, que os testes em animais no mundo, com muito esforço, só deverão findar em torno de 2050. E então José, como fica essa conta?

Beleza ou crueldade?

As empresas finais não possuem laboratórios de testes, mas também não possuem rastreabilidade ou controle de todas as matérias primas que compram para produzir seus produtos. Assim, as empresas fornecedoras, dependendo da legislação dos países onde produzem e comercializam seus ingredientes, precisam obrigatoriamente testar em animais. Ratos, coelhos, macacos, cachorros como os da raça beagle, escolhido por sua estrutura física e humor dócil, estão ainda aos milhares sofrendo ou morrendo neste minuto que vos escrevo. Pergunto: onde está a beleza nisso? Qual a relação entre beleza e crueldade? Ou seria “O que não vejo, não dói em mim ou em algum ente querido”. Simplesmente não tem nada a ver comigo? 

Posso dizer que até começar a ler este texto, talvez pelo seu desconhecimento, você não tinha culpa. Mas agora se tornou uma questão de escolha se importar com seu papel de indivíduo na sociedade. Cuide de você, do seu entorno, do que entra e sai de sua casa. Repetindo, do que ENTRA e SAI.

Sim, você é parte da cadeia. É parte fundamental para estimular as empresas a produzirem melhor, com mais qualidade e mais responsabilidade com a vida humana e animal. Podemos escolher eticamente o que nos faz sentir mais bonitos, mais bem cuidados e atraentes. Explorar a beleza individual que TODOS NÓS temos, é ser grato com o que recebemos de graça, através do milagre da vida. 

Conto com você a partir de agora para fazer nosso movimento mais forte em prol da VERDADEIRA BELEZA. A beleza que o planeta nos oferece diariamente mas nem sempre enxergamos. 

Sim sou mulher, médica dermatologista, ativista e amante da vida, das pessoas e dos animais, questionadora que deseja deixar um legado para que as próximas gerações desfrutem de um mundo mais justo e equilibrado. Que muitos possam conhecer um sentimento chamado COMPAIXÃO.

Seja bem vindo ao meu mundo que agora também é seu. 

Dra. Adriana Leite – Fundadora da Cosm-éticos


Mais Notícias:

Todas as formas de vida têm o mesmo valor

Dermatologia e Ciência

Movimento II - Os 6 níveis de desenvolvimento da humanidade

Dermatologia e Ciência

O cosmético que você usa pode fazer sua unha pegar fogo

Dermatologia e Ciência

Desafio: desenvolver meu primeiro perfume 100% sintético

Dermatologia e Ciência

Parabenóia: esse medo tem fundamento?

Dermatologia e Ciência

Legislação Brasileira sobre o uso de Animais Vivos no Ensino - Onde Estamos e Como Podemos Avançar?

Dermatologia e Ciência