Dermatologia e Ciência

Parabenóia: esse medo tem fundamento?

Por Dra. Fabia Schalch | Médica Dermatologista

Quem são os parabenos?

Família de ésteres de phidroxibenzóico que foram utilizadas pela primeira vez em 1920 como agentes antibacterianos e antifúngicos, que se tornaram rapidamente os conservantes mais utilizados em cosméticos, alimentos e drogas. Apresentam rápido metabolismo na pele e pelas enzimas hepáticas. Podem ser identificados nos rótulos como metil, etil, propila e butilparabeno.

Qual a importância dos conservantes?

De forma resumida, conservantes são substâncias químicas (naturais ou sintéticas) adicionadas a um produto (alimento, cosméticos, fármacos) com o propósito de evitar a contaminação por bactérias ou fungos, tornando mais longa sua vida. Os parabenos são conservantes muito utilizados pelo seu perfil de alto espectro antimicrobiano e por serem incolores, inodoros, estáveis e baratos.

Afinal, qual o problema com os parabenos?

A polêmica sobre o impacto na nossa saúde com o uso dos parabenos é grande e já existe há muitos anos. Os maiores impactos questionados seriam sobre o desenvolvimento de dermatites (alergias) de contato e, mais recentemente, sobre possíveis efeitos endocrinológicos (hormonais).

Dermatite de Contato

Ao pesquisarmos na literatura científica, artigos desde 1968 tentam correlacionar o uso do parabenos com desenvolvimento de alergias na pele. Entretanto, os estudos chegam a porcentagens inferiores a 1% de associação, uma das taxas mais baixas entre os conservantes do mercado.

Basicamente as conclusões científicas até o momento são que os parabenos são pouco indutores de alergia na pele íntegra, mas trazem riscos maiores em peles que apresentam algum dano, como eczemas prévios e defeitos de barreira, como ocorre nos portadores de dermatite atópica.

Efeitos hormonais

Na última década, alarmes foram feitos sobre possíveis efeitos hormonais dos parabenos, associando-os a puberdade precoce em meninas, alteração do sistema reprodutivo masculino e até casos de câncer de mama. 

Fato é que os parabenos fazem parte do grupo conhecido como “desreguladores endócrinos”, substâncias que agem nos receptores endócrinos ou que alteram de alguma maneira o sistema endócrino.

Artigo publicado em 2004, demonstrou presença de parabéns em tecidos mamários com câncer de mama, mas devido a sua metodologia falha, muitas dúvidas surgiram. Desde então, diversos estudos têm se dedicado ao assunto, alguns demonstrando os fracos efeitos dos parabenos como estimuladores estrogênicos e outros, mais recentes, descrevendo detalhes dos  possíveis mecanismos dessa ação estrogênica, in vitro.

Mas, será que in vivo os resultados seriam semelhantes? Qual a dose a ser administrada diariamente de parabenos para causar tais efeitos? A absorção pela pele pode gerar doses acumulativas se o metabolismo é considerado tão rápido ? As dúvidas ainda persistem. Diante desse panorama, a comunidade científica e órgãos oficiais como a Agência Internacional pelo Estudo do Câncer afirmam que ainda não existem provas contundentes que relacionem os parabenos com câncer.

Existe controle na quantidade de parabenos presente nos produtos?

O FDA e a Anvisa estabelecem o limite de 0,4% para uso de parabeno isolado e 0,8% quando utilizados em conjunto.

Diante da polêmica, o que fazer?

A escolha sobre consumir ou não produtos que não contenham parabenos se torna exclusiva do consumidor. Apesar das controvérsias, existem diversas marcas no mercado livres de parabenos (parabeno free).

Em substituição aos parabenos, a indústria tem buscado novos métodos de fabricação em condições assépticas, redução da quantidade de água nas fórmulas, uso de conservantes naturais e novas substâncias sintéticas, atendendo ao apelo de mercado do Parabeno Free. Também devemos salientar que novas substâncias com poder conservante estão sendo utilizadas, apesar de poucos estudos que realmente comprovem sua eficácia e segurança, e que os conservantes naturais não são livres de efeitos colaterais, como alergias.

É importante ter cautela com a crescente tendência da produção caseira de cosméticos, que podem apresentar altas taxas de contaminação por não usarem conservantes em suas composições. Esses produtos devem ser mais rapidamente consumidos.

Fontes:

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